- O seguinte texto que contextualiza o poema e o poema foram terminados no início de 2025. Agora, no início de 2026, tenho um trauma ainda maior devido a violência policial. Desta vez, em vez de assistir, fui eu a vítima. Não sei se consigo escrever um poema sobre isso mas alguns versos que aqui escrevi há mais de um ano ainda ecoam.
- Dentro dos complexos processos de segurança holística típicos de movimentos sociais, existe o conceito de “Segurança Emocional”. É algo que pode acontecer a nível individual mas cuja abordagem e colmatação depende em parte da cultura do coletivo, que é influenciado pela cultura do movimento no qual este se insere. O “em parte” é importante aqui: há coisas que colegas de ativismo nunca conseguirão fazer por nós em termos psicólogos ou psiquiátricos – mesmo os que são psicólogos e psiquiatras. Num coletivo em cujos eventos já participei, uma das formas como estamos a tentar fazer aquilo a que se chama “trabalho emocional” é deixar de usar o termo “Burnout” (colectivamente, não individualmente). Isto porque reparamos cada vez mais que se está a tornar numa palavra fácil de se usar para evitarmos ter de lidar com sentimentos, incluindo lidar com nós mesmos. O exemplo que uma amiga deu foi “uma pessoa que faz bloqueios de estrada poderá sofrer de stress pós traumático quando ouve motas”. Outras pessoas poderão estar a sofrer com cansaço por terem de conciliar ativismo com um emprego de 40 horas. Estas duas coisas não são a mesma coisas, mas em meios ativistas ainda é comum dizer que ambas estão a sofrer “burnout ativista” ou que estão “fritas”. Além de potenciais problemas psicológicos, não abordar estas questões leva a que as pessoas desistam das suas lutas ou que não cheguem ao potencial que poderiam ter.
Estas conversas dentro do movimento serviram para despertar em mim a necessidade de encarar o meu maior trauma de 2024: Na noite de 9 de Maio, estava eu a ajudar com fotografia o movimento ‘Fim ao Genocídio, Fim ao Fóssil’ Ocupa da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, quando chegou a polícia (não faço parte dos coletivos estudantis mas ofereço serviços de fotografia pro-bono à Greve Climática Estudantil). Comparativamente, não foi nada demais comparado com outras coisas que fotografei posteriormente, mas os fatores de momento inesperado, insegurança emocional e não ter a minha maior ferramenta de auto-defesa 100% capaz (a minha câmara) criou um Antes e Depois na minha vida. Nessa noite, tornei-me noutra fotografa. Mais preparada, mais dedicada, mais experiente. E oito meses passados desde a chegada da polícia ainda tremo e sinto o corpo agitado quando me lembro dessa noite. Este poema será uma descrição cronologica-emocional do que ficou marcado em mim.
De noite
De noite,
na faculdade de psicologia
estava sentada numas escadas
Ao meu lado, um papagaio de papel
tinha versos escritos:
“Se eu tenho de morrer, tu tens de viver
para contar a minha história”
Em cima, um tecido serigrafado
ilustrado, dizia:
“Fim ao Fóssil”.
Alguns preparavam um filme,
Outres já dormiam em tendas.
Uns três degraus abaixo de mim
uma colega explicava a outra pessoa
filosofia de escola secundária.
Nesse momento,
chegou a polícia.
(Apenas isso, já um ato
de violência, pois não nos
avisaram antes de a chamar)
Negação, Comunicação, Ação
Resistência, Persistência
Não perguntei como reagir.
Por afinidade e teoria já sabia
e sabendo o que iam fazer
eu sabia o que tinha de fazer
Os que ficaram dentro resistiram
defendendo a ocupa, lugar de esperança,
base de operações que nos dava cama,
E nós que saímos corremos
Procurar todas as saídas
Por onde podiam levar
as companheiras detidas
e bloqueamos carros da polícia
Pessoas arrastadas, cânticos,
nervos – mas lá dentro, sentadas,
saberão que lá estivemos para elas
Quando chegou a polícia
estava quase sem bateria –
pensei “de noite carregarei o dia”
E fui fotógrafa mal preparada
sem a defesa de uma lente ligada,
que apontada é das maiores armas
de auto defesa contra violência azul
(O que poderia ter ficado para a história
Ficou a um décimo do que podia ter sido
Pois o meu maior erro de fotografa
foi deixar-me sentir-me segura
numa faculdade de psicologia)
Pois de noite,
depois do telejornal
ninguém saberá.
(Disse-nos a Carolina
que assim o faziam no seu tempo
nos protestos anti-propinas:
“De noite, para ninguém ouvir”).
Quase nas traseiras, por uma grade
víamos o terror azul claro
ouvimos um policia, rindo-se
a proferir uma frase
que ainda um ano depois
cada vez que me lembro
me tira a mente do corpo,
me deixa agitada, a tremer,
gritando sem som:
“Se eles querem brincar vamos brincar”
(E eles brincaram:
Circundando a esperança
Com todas as bastonadas
Arrastando a Catarina
no chão da rua
levando as nossas amigas,
nas traseiras de Psicologia)
E muitos ainda apareceram
de noite, após a chamada
de pedido de ajuda
quando alertamos as redes
que tinha chegado a polícia
E assim, estudantes e apoiantes,
gritavam outro poema:
“Que vergonha que vergonha,
Que deve ser
Prender uma estudante
Num mundo a arder”
De noite, voltámos para a fachada
da fachada da faculdade
de psicologia e ciências da educação.
Nas tendas que tirámos,
dormimos, na rua,
arriscando sermos vítimas
daqueles contra os quais lutamos
que nos mandavam
ameaças de morte.
Quem não se importava de mentir
dizia ser estudante de direito
para nessa faculdade
ter acesso a uma casa de banho.
As outras, tinham um cantinho
no jardim da poente do edifício
de Psicologia e Ciências da Educação
De noite, ergueram-se faixas à lua:
“Bloco de Resistência Estudantil
contra a Repressão Policial”,
essa faixa levada meses antes,
combativamente,
na marcha do dia do estudante,
ficou estendida, deitada de noite
em frente à fachada de Psicologia
e Ciências da Educação.
De noite, depois de tudo,
um estudante toca guitarra
Não o gravo.
Capturei segundos do seu som.
De manhã: uma funcionária
fez troça de nós, chamou-nos “sem abrigo”
(Para onde iria uma fotografa da periferia
de noite, sem transportes?)
Quando pudemos entrar, tirar as coisas
(apenas uma a uma)
Pedi ao segurança para carregar a bateria
Disse-lhe
“se a polícia voltar, ter uma câmara
é a melhor forma de me proteger”
Respondeu-me
“Isso não é problema meu”
(O medo horroroso e agonizante
de sermos vitimas de violência polícial
não é preocupação da Segurança)
(Agora que sou funcionária,
agora que vigio museus –
Ainda menos percebo
Como puderam ser assim
trabalhadores como eu
a reforçar quem nos oprime)
Mas houve fermento:
De manhã, um jornalista de Azambuja
naquele dia estava na Palestina
com a equipa do Fumaça, na Cisjordânia
mostrou aos locais o momento
do retorno das estudantes detidas
E na distância nos contou
que lhes despertámos esperança
(Como se não bastassem razões
para testar nossas intervenções!)
(Mas vocês acham que gostamos
daquilo que fazemos?
Acham que não preferiamos
acender velas em vigílias silenciosas
ou escrever artigos?
Porta-te bem ativista,
protesta como o sistema que te oprime
quer que tu protestes!)
Oito meses passados ainda tremo
ainda me dá o medo da polícia
Vêem-me plenas as memórias
O corpo reage em gestos bruscos
E numa vontade de gritar
olhos fechados, boca aberta –
O grito sai em sussurro
para não incomodar os vizinhos
(Ao voltar do trabalho
Sentada no elétrico, anoitecendo,
Vejo luzes azuis em Santo Amaro
e estou no Campus denovo)
“Se eles querem brincar, vamos brincar”
No psiquiatra
não conto o que me atormenta
Pois que pode dizer uma ativista
a psicólogos e psiquiatras,
Quando próprios estudantes
de psicologia e medicina
nos ferem propositadamente?
Vinte dias depois do 9 de maio
protestaram na escola médica
e brotou a resposta:
Que os meus futuros médicos
sejam os estudantes de medicina
cujo Juramento de Hipócrates
é serem detidos pela polícia
quebrando normalidades doentes.
Que os meus colegas,
trabalhadores na cultura,
tenham estado nos treinos físicos
de auto-defesa não-violenta coletiva
para nos protegermos da policia
no pátio da cisterna das Belas Artes
ao som de tunas ensaiando.
(Fermenta a luta, amor –
porque para certos autorizados
a andar armados,
tudo é uma brincadeira)
(Um dia o oceano levantará
por inação causada por repressão
e quando o Campus da Justiça
estiver debaixo de água,
nesse dia seremos livres
por meros segundos
antes de morrermos também)
(Oh, estudante,
não sejas como eu fui em Coimbra –
Faz pela abolição do
conservadorismo vestido de Abril
que te faz celebrar as disrupções
do século Vinte, e te cega
para a necessidade da disrupção
no século Vinte e Um
perante ameaças maiores que ditaduras.
Repito: ‘Pedir a Palavra’
é fazer-se depender de ser ouvido)
Oh, meu corpo tremendo:
Eu recuso-me
a acreditar que um diretor
de uma faculdade de psicologia
não sabia o que estava a fazer
aos nossos cérebros.
Noutra noite, d’outro ano,
liberta-se parte de uma mente sufocada:
do trauma brotou o poema
da noite do 9 de maio de 2024.