Turista de Istambul

  • Era dia 12 de Abril de 2024. Estava com colegas do Climaximo nas traseiras de uma oficina de Serigrafia que nos ajuda na criação de materiais artísticos. Falámos sobre o mundo, ativismo, disrupção, receios. A meio, entra na loja uma turista que vem de Istambul, e o mestre da oficina vai recebe-la. Ouvimos a conversa. Senti um poema a brotar. O poema também é inspirado em, e faz referência, a ações da Greve Climática Estudantil. Tento expressar que a forma como estamos a perder a nossa liberdade no século XXI não tem o mesmo aspecto que a sua perda no século XX. Originalmente publicado em julho de 2024.

Turista de Istambul, passaste por cá em Abril.
Apareceste na loja de serigrafias
enquanto a resistência estava na oficina.

Turista de Istambul, viste os nossos rostos?

Tingíamos tecidos que sabíamos vir a ser apreendidos pela policia;
Em Bloqueios de Estrada, Sabotagem Industrial, Colagens.
Estas artes efémeras de símbolos do tempo e do nosso tempo.

(Viste história e não soubeste.
Havia história em ti que não soubemos?)

Turista de Istambul, ouvi-te dizer que não era seguro o teu país.
Quantas ativistas; feministas; antifascistas; climáticas
não estarão nas traseiras das lojas artísticas,
que levianamente turistas em Istambul visitam?

(Se os políticos que me querem dona de casa vencerem
terei máquinas de estênceis, gravuras, e costura.
Farei arte efémera em vez de lavar a louça)

Turista de Istambul, no dia em que nos foste ver sem querer:
Falei de ir ao hospital numa noite de onda de calor;
Falamos da seca em Beja (minha Baronia, –
onde a minha mãe colhe com as suas mãos
frutos d’um colapso negado).
Falamos de amigues no Tribunal, Vitimas de Violência policial; e Prisão.

(Óh, se ao menos tivéssemos confiança
noutra Teoria de Mudança –
– “juro, é só mais uma petição,
e enquanto isso lá passarão”!
)

Turista de Istambul, confrontaram o presidente:
Respondeu-lhes que é tão bom viver em Liberdade;
Poder opinar; Confrontar a autoridade;
Pois ditadura era Tribunal; Violência policial; Prisão.

(O presidente não sabia – não percebeu, não perguntou -,
que o estudante que o confrontou
já foi para o hospital de cabeça a sangrar
por violência policial)

Turista de Istambul, ali podias ver-nos os rostos –
(Partes d’)estas Resistências não são secretas:
Os nossos cânticos são poesia nas ruas;
Com fotografia recusamos o esquecimento histórico
– se perdermos, se for em vão – olhem, Acontecemos;
E as bandanas com que escondem as caras
estão expostas nas montras das lojas de gravuras.

(E os estudantes declamam o poema:
“Esquadra, Porrada, Policia e Julgamento,
não assustam mais que dois graus de aquecimento”;
E todes esperamos que num dia ou noite,
nos possamos livrar dos megafones e ampulhetas)

Turista de Istambul,
no Agosto de 23 a Turquia sentiu mais de 49ºC;
quando vir no jornal que chegou aos 50ºC,
lembrar-me-ei de ti outra vez.

(E se silêncio houver,
voltaremos a ter tecidos confiscados)

‘Cinquenta’, número-Símbolo de efeméride de Abril;
‘Cinquenta’ número-Sentido-na-pele, na seca, no hospital e tribunal.
‘Cinquenta e um’ número-que-Será-Esquecido na mundanidade da fome.

(A poetisa amadora
precisa de ver poemas no mundano
pois não há arte que salve quer mente ou corpo
num colapso normalizado de guerra negada)

E o ultimo dístico resume o que todo o poema expressa:
“Dizem que Liberdade é não ter medo mas estou aterrorizada;
Pois se ser livre é isto, então falhámos a Liberdade”