- [Versão em Português neste mesmo post, após a versão inglesa] Por agora este é o unico poema (semi-poesia semi-manifesto) que refinei em inglês. Estava sentada a vigiar uma sala no museu onde trabalho, com um Dali ao meu lado, quando vi noticias sobre cinco ativistas climáticos condenados à prisão no Reino Unido por fazerem uma chamada sobre desobediência civil, e comecei a pensar nas ansiedades que também temos cá. Pensei ainda na minha relação com a arte, a cultura, a sua capacidade tanto interventiva como opressora (há tanta domesticação de movimentos sociais disfarçada de progressivismo), ações de protesto em espaços culturais, e a justaposição entre um quieto trabalho que envolve vigilância (que me prende pela necessidade de um salário e me impede de fazer ativismo 40 horas por semana) com a minha crença na necessidade de disrupção na sociedade (o “passar a linha”). Recitei-o na conferência anual da Acesso Cultura de 2024.
Juxtapositions of a Worker-Activist mind
Forty hours a week in a museum,
telling visitors to be careful with the art pieces.
In moments of irony which doesn’t escape me,
I read about civil disobedience in the quiet hours;
and holding the book with my hands, partially concealing the title,
I tell the people I vigilate,
to not cross a black line, drawn on the floor.
Quietly sitting in the tall chair of the corridor, a Dali next to me,
I see news of more climate activists sentenced to prison.
And I ask myself if the visitors use art
as a momentary escape from a collapsing planet
or if art makes them passive towards this world.
And I say “Sorry, please mind the line”
(Where can the line be drawn in this duality?)
And I wonder how to be whole:
The quietness of these rooms makes this artist inspired,
this museum worker relieved,
this activist restless and uneasy.
Facing the juxtapositions of my mind,
I turn and say, “Sorry, please don’t touch”
(Art has all these capabilities:
To protect, involve, to intervene, even entertain,
but it can also domesticate you, and limit one’s potential,
leaving us limited to the mere acknowledgement of the problem –
“look at this piece by this marginalized artist,
you do your part by looking at it,
the structure that oppresses them is grateful if you merely feel compassion,
you don’t need to attack anything”
– Oh, Art! Oh, Culture! Why is it that graduating in your History
taught me that I should think of you as you are
and not as artists and enthusiasts think of you?
Why is there propaganda
– including some from museological institutions –
which tells us that changing the world is something inherent of you?)
How many artists have died
How much material has been degraded
before we even started saying
“There’s no Art on a dead planet”
But Art, the pandora box that shook your world
was no artists’ death
and when it comes to material heritage:
it was no degradation due to temperature variation,
of freeze-thaw cycles or day-night thermoclastism,
or sea acidification, or defrost thawing,
nor raging fires or ravenous floods;
The pandora box that shook your world,
Twas soup on glass and flour on stone.
So how can I say it didn’t work,
(And I didn’t want it to)
When I know of the conferences activists lead to?
When on my social circle, only did they start talking
when Van Gogh became a symbol of climate resistance.
(For are we not the daughters of Fluxus,
who taught us to promote non art reality?)
I answer the visitors questions while I know
my friends are somewhere blocking a road.
And I’m quietly protecting a Picasso
when my dearests are being detained in disobedience,
fighting against the actual biggest threat to our heritage.
There is a metaphorical line
which I want everyone to cross
– it is located inside everyone’s mind;
you cross it when you answer to yourself:
Knowing what you know, what will you do?
There is still art on a dying planet.
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Justaposições d’uma mente Trabalhadora-Ativista
40 Horas por semana no museu,
a dizer às pessoas para terem cuidado com as peças
Em momentos de ironia que não me escapa,
Leio sobre desobediência civil nas horas quietas;
e de livro na mão, título parcialmente escondido,
Digo às pessoas que vigio,
para não passarem uma linha negra, desenhada no chão
Sentada na cadeira alta, um Salvador Dali ao lado de mim
Vejo notícias sobre mais ativistas climáticos condenados à prisão
E perguntou-me se os visitantes usam arte
como escape momentâneo de um planeta em colapso
ou se a arte os torna passivos perante este mundo
E digo “Desculpe, cuidado com a linha”
(Onde se traça a linha nesta dualidade?)
E questiono-me como lidar com o assombro de ser uma pessoa inteira:
A quietude destas salas deixa esta artista inspirada,
esta trabalhadora de museu aliviada,
esta ativista inquieta
Encaro estas justaposições da mente, movo-me e exclamo:
“Por favor não toque”
(Arte tem todas estas capacidades:
Proteger, envolver, intervir, até entreter,
mas também de domesticar, limitar potenciais,
limitando-nos ao mero reconhecimento de um problema
– “olha esta obra deste artista marginalizado,
fazes a tua parte por olha-la, a estrutura que o oprime
agradece-te se meramente sentires compaixão
– pois assim não o atacas.
Ò Arte ò Cultura, porque é que licenciar-me na tua história
me ensinou que tenho de pensar em ti como és
e não como artistas e apreciadores falam de ti?
Porque é que há propaganda – inclusive de museus –
que nos diz que mudar o mundo é tua capacidade inerente?)
Quantos artistas já morreram
E quanto material se degradou
Antes de começarmos a exclamar
“Não há arte num planeta morto”
Mas Arte, a caixa de Pandora que te abalou o mundo
não foi morte literal de artista
e no que toca a património material:
Não foi degradação por maior variação de temperaturas
entre dias e noites, ou de ciclos de derretimento,
ou acidificação oceânica, ou descongelamento de degelos,
Ou fogo sedento ou cheias abrasadas
A caixa de Pandora que te abalou o mundo
Foi sopa em vidro e farinha em pedra.
Então como posso dizer que não funciona
(E não queria que funcionasse)
Quando conheço as conferências a que os ativistas levaram?
Quando no meu círculo social, só começaram a falar
quando VanGogh se tornou num símbolo de resistência climática?
(Pois não somos nós as filhas de Fluxus
que nos ensinaram a promover a realidade que não é arte?
Respondo as questões dos visitantes enquanto sei
que algures amigas bloqueiam uma estrada
E na quietude protejo um Picasso
quando as minhas queridas são detidas em desobediência
Contra a verdadeira maior ameaça às nossas heranças.
E penso que quero que todos passemos
as linhas metafóricas de dentro de nós –
Essas linhas dos riscos que nos bloqueiam
As ultrapassamos temendo e encarando
respostas vindas de nós mesmas:
Sabendo o que sabes o que é que vais fazer?
Ainda há arte num planeta a morrer.