- Este poema pretende transmitir a intensidade emocional que senti quando comecei a lidar com de ativismo sério, defino como grupos que pensam em estratégia, coordenação internacional, cultura de segurança, e que providenciam recursos e apoio mútuo para ajudar cada pessoa a desenvolver-se no melhor de si. Antes apenas conhecia o mundo muito limitado de dois grupos da Associação Académica de Coimbra (Grupo Ecológico e um pelouro no Núcleo de Estudantes de Letras), que, embora me custe admitir, agora reconheço terem sido seriamente afetados pela cultura de domesticação estudantil do “Pedir a Palavra”. Parte do meu “luto e luta” pessoal é sobre lidar com ter feito parte de um sistema que abafava as vozes de pessoas que agora são minhas amigas. Isto implica lidar emocionalmente com saber que já podia ser outra pessoa mas ainda estou por aprender tantas coisas que já podia ter conhecido (e com essa informação ter-me tornado algo mais concretizado), e podia ter também conhecido as pessoas que agora me são mais queridas, que, enquanto eu vivia na cultura domesticadora do “Peço a Palavra”, estavam a arriscar o próprio corpo em ação direta. Este poema é sobre esta metamorfose, sobre este mergulho, sobre este trabalho emocional. Começa com um sentimento de fascínio ao ouvir histórias de outras pessoas ou sobre pessoas que já mais experienciaram, e em algumas partes desenvolve-se no que já experienciei.
Mergulho Além-Rua
Descreve uma cozinheira anarquista
sinergias em encontros internacionais,
desafios e resiliência da horizontalidade;
ser recebida pela diáspora curda,
e como cantam o poema de Rojava.
Uma atriz lamenta memórias
do campos climático no Líbano
pelo que a guerra tornou aqueles campos
que viram povos de todo este globo
encostando-se uns aos outros
por uma esperança maior que estados
por uma esperança maior que impérios
Uma estudante de Antropologia reuniu na Bolivia,
com cuidado nos contou de assassinatos de ativistas;
de resistências indígenas no México,
da defesa das terras, da defesa da Terra.
Há sororidade
na estrada bloqueada,
na câmara municipal pintada:
acord’ás vias, expõe nosso sangue –
pigmento de cheias branqueadas
Há imaginação radical
e esperança coletiva
numa faculdade ocupada,
(Pelo clima, pela Palestina)
lugar de reunião tornado base de operações,
Constrói protestos, reivindicações,
— ação direta, toma as instituições –
Tece redes de apoio mútuo,
monta uma cantina popular:
a construção da esperança
é mais eficaz quando não há fome.
No pós-laboral há mobilização de rua
E entre os maus cheiros de cola
de farinha cozida fermentada,
conversamos sobre tudo e nada:
Imaginação radical, ações concretas,
Trabalhos de merda, Guerra das Estrelas.
Criemos grupos de afinidade,
assombrades pela ameaça neo-nazi;
e haverá Infiltrado que nos quer à beira do precipício
Será polícia, jornalista, fascista?
Òh – tememos medo de confiança
mas também das barreiras de segurança
que impedem união nas resistências;
(Como se lida com ter informação
que tem de ir connosco para a sepultura?
Respondam-me, anciães de Abril!)
Cuidemos uns dos outros
Lembremo-nos da nossa humanidade:
numa panela cada vez mais fervente,
entre opressão, insultos e agressões,
Ser humano é um esforço contínuo
(“Vai trabalhar ativista,
não interessa se acabaste de vir
do trabalho – não te conheço”
Mas nas 40 horas que passo
sentada numa cadeira enquanto o mundo arde,
penso e exclamo:
Louvados são os desempregados
que esses sim têm mais tempo para agir
em vez de estarem a tornar os ricos mais ricos
ou a tecer uma falta sensação de paz
e normalidade que nos domestica)
(Como se lida com um luto específico
pela pessoa que eu não fui?
Como se lida com eu ter sido
a pessoa que insultaria
quem me é agora mais querido?
Pensar que em vez de falar mal de ti
podia ter estado aqui
e proteger-te com meu corpo físico)
Vocês são mais que a teoria que escrevem
ou vossas nódoas de bastonadas da polícia:
Tu, que tens 16 casos em tribunal,
Tu, que tens listas de leitura para fazer na prisão
Tu, que adormeces entre cada paragem de comboio
Tu, que já te cansaste de trabalhar em Organizações Não-Governamentais
Vocês, as ONGs que secretamente nos ajudam
Vocês, estudantes que foram condenades a multas de quinhentos euros por bloquearem o ministerio da saude, protestando pelos direitos de pessoas trans, palestina e clima, perante a cultura domesticadora do “Peço a Palavra”.
Vocês, que fazem o que podem tendo em conta
as vossas carreiras de docentes nas universidades
Vocês, que em ações de cara tapada
são chamados de gatunos que não dão a cara,
mas quando a mostram para se humanizarem
vos dizem que “só querem aparecer e ter fama”
Vocês que escreveram nas paredes da Okupa
de Santa Engrácia “A luta é um poema coletivo”.
Oh, grito e choro!
Tudo o que já mais me deu esperança
na humanidade foi destruído pela polícia!
E mais choro em Abril
pois tentam convencer-nos que somos livres
vivendo num planeta em colapso!
(Adiante, que já escrevi esse poema,
já escrevi Turista de Istambul)
Quando se dá o mergulho
encontramos um mundo
reprimido, escondido,
(mas à vista de todes
– faz a própria imaginação coletiva
pensar que nem existe no presente
porque do passado tanto se fala
– em nem um porcento)
Oh, somos feitos de heranças
de resistências passadas,
com conhecimentos vindos
desde as nossas famílias
(avós que viveram outra ditadura),
quer as em que nascemos
ou as por nós escolhidas
(Quando eu nasci, a minha mãe,
por necessidade, vivia numa Okupa);
dos livros banidos
nas bibliotecas anarquistas;
ou de amigues por todo este globo
Comunicando, Coordenando-se,
experimentando, escrevendo:
Teoria, auto-defesa, repressão, poesia
No mínimo,
teremos o nosso papel
na ecologia dos movimentos.
No mínimo,
recusaremos o esquecimento histórico
de quem tentou.