- Inspirado num sonho que tive a 8 de Março de 2022. Sonhei com uma população inventada algures nos meus neurónios, ouvi sons, vi cores, várias ideias vagas de uma cultura. Originalmente publicado dia 8 de Março de 2022.
Ultramarino. Cidade estreita entre montanhas férteis que se desenvolve ao longo de um rio. Destino de vários caminhos de água até um centro único, desagua de volta em vários afluentes. Três partes a que os habitantes chamam Raízes, Tronco e Ramos, metaforicamente entendendo-se a si mesmos como Folhas e as suas acções como Sementes. Não são mais que uns oito milhares.
As casas estão a vários metros acima do caudal pois a maré muito sobe. A área onde estão as montanhas é a única habitada do seu globo. As praias são banhadas por pigmentos em tons de azul que a água traz da força com que desgasta as rochas. O Povo usa-os na sua arte, essencialmente bidimensional, muito ligada ao mar por ser o imaginário do seu mistério. Está nas paredes das suas casas, em pequenas galerias onde de ensina o engenho, e de tão abundante em pinturas temporárias das suas caras às pernas.
De vez em quando uma luz subtilmente cintilante brilha nos ares e nas águas, entre brancos, amarelos e azuis, expressão da substância mágica que liga mar terra e ar. Todo o povo a sente e entende-a não como divina mas alguma espécie de criatura viva, uma vizinha, não sabem se imortal, um dom de Iús pois mais nada conhecem, preferem conhecer-se a si mesmos. Chamam-lhe Inuo – “a luz”, inu – luz.
O povo usa túnicas e mantas consoante a estação tingidos com os pigmentos escuros do oceano, os ocres da terra e pequenos toques dos violetas das flores juntos com os verdes muito escuros da natureza circundante. Mulheres e homens usam ou não joias a gosto, de metais escuros, pratas, lazúlis e pequenas pedrinhas quase transparentes, brancas, que captam a luz das luas e cujo brilho subtil se vai derramando em pequenos nevoeiros durante um mês. Não há materiais considerados preciosos, e quase tudo é passado de geração em geração com eventuais modificações.
Criaturas marinhas raramente passam pelo rio por terem tanto mar e a maioria se assustar com cenários – casas, o povo – que nunca viram. Por vezes uma – quer peixe, quer baleia – perdida encontra um caminho até aos afluentes e dá-se uma cerimónia que começou improvisada, mas tornou-se tradição passada por gerações: Inuo faz o peixe brilhar para que nele reparem, e pessoas que lá perto se encontram guiam-no de volta ao mar, não vá desaguar onde não respira. Enquanto dura, cantam. As suas artes mais prezadas são as não materiais. Sons etéreos, meditativos, que trazem paz aos sentidos, as suas letras não são da língua que falam mas é nela baseada, um afastar do objetivo sem se desligarem das suas perceções pois reconhecem que delas tudo deriva. Nas cerimónias canta-se muito à base de vogais, entre o I e o U, num som que lembra as palavras “A luz guia” – “Inuo abimur”.
Povo ultramarino sem conhecer o abismo do mar, o mar dá-lhe as suas cores para se lhe darem de volta a ele nos fins da sua vida e retornarem em cinzas às areias. Dizem os mais antigos que todos os que já viveram entre as montanhas são átomos nas suas casas e corpo.