De noite

  • O seguinte texto que contextualiza o poema e o poema foram terminados no início de 2025. Agora, no início de 2026, tenho um trauma ainda maior devido a violência policial. Desta vez, em vez de assistir, fui eu a vítima. Não sei se consigo escrever um poema sobre isso mas alguns versos que aqui escrevi há mais de um ano ainda ecoam.
  • Dentro dos complexos processos de segurança holística típicos de movimentos sociais, existe o conceito de “Segurança Emocional”. É algo que pode acontecer a nível individual mas cuja abordagem e colmatação depende em parte da cultura do coletivo, que é influenciado pela cultura do movimento no qual este se insere. O “em parte” é importante aqui: há coisas que colegas de ativismo nunca conseguirão fazer por nós em termos psicólogos ou psiquiátricos – mesmo os que são psicólogos e psiquiatras. Num coletivo em cujos eventos já participei, uma das formas como estamos a tentar fazer aquilo a que se chama “trabalho emocional” é deixar de usar o termo “Burnout” (colectivamente, não individualmente). Isto porque reparamos cada vez mais que se está a tornar numa palavra fácil de se usar para evitarmos ter de lidar com sentimentos, incluindo lidar com nós mesmos. O exemplo que uma amiga deu foi “uma pessoa que faz bloqueios de estrada poderá sofrer de stress pós traumático quando ouve motas”. Outras pessoas poderão estar a sofrer com cansaço por terem de conciliar ativismo com um emprego de 40 horas. Estas duas coisas não são a mesma coisas, mas em meios ativistas ainda é comum dizer que ambas estão a sofrer “burnout ativista” ou que estão “fritas”. Além de potenciais problemas psicológicos, não abordar estas questões leva a que as pessoas desistam das suas lutas ou que não cheguem ao potencial que poderiam ter.
    Estas conversas dentro do movimento serviram para despertar em mim a necessidade de encarar o meu maior trauma de 2024: Na noite de 9 de Maio, estava eu a ajudar com fotografia o movimento ‘Fim ao Genocídio, Fim ao Fóssil’ Ocupa da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, quando chegou a polícia (não faço parte dos coletivos estudantis mas ofereço serviços de fotografia pro-bono à Greve Climática Estudantil). Comparativamente, não foi nada demais comparado com outras coisas que fotografei posteriormente, mas os fatores de momento inesperado, insegurança emocional e não ter a minha maior ferramenta de auto-defesa 100% capaz (a minha câmara) criou um Antes e Depois na minha vida. Nessa noite, tornei-me noutra fotografa. Mais preparada, mais dedicada, mais experiente. E oito meses passados desde a chegada da polícia ainda tremo e sinto o corpo agitado quando me lembro dessa noite. Este poema será uma descrição cronologica-emocional do que ficou marcado em mim.

De noite

De noite,
na faculdade de psicologia
estava sentada numas escadas
Ao meu lado, um papagaio de papel
tinha versos escritos:
“Se eu tenho de morrer, tu tens de viver
para contar a minha história”
Em cima, um tecido serigrafado
ilustrado, dizia:
“Fim ao Fóssil”.
Alguns preparavam um filme,
Outres já dormiam em tendas.
Uns três degraus abaixo de mim
uma colega explicava a outra pessoa
filosofia de escola secundária.

Nesse momento,
chegou a polícia.
(Apenas isso, já um ato
de violência, pois não nos
avisaram antes de a chamar)

Negação, Comunicação, Ação
Resistência, Persistência

Não perguntei como reagir.
Por afinidade e teoria já sabia
e sabendo o que iam fazer
eu sabia o que tinha de fazer

Os que ficaram dentro resistiram
defendendo a ocupa, lugar de esperança,
base de operações que nos dava cama,
E nós que saímos corremos
Procurar todas as saídas
Por onde podiam levar
as companheiras detidas
e bloqueamos carros da polícia
Pessoas arrastadas, cânticos,
nervos – mas lá dentro, sentadas,
saberão que lá estivemos para elas

Quando chegou a polícia
estava quase sem bateria –
pensei “de noite carregarei o dia”
E fui fotógrafa mal preparada
sem a defesa de uma lente ligada,
que apontada é das maiores armas
de auto defesa contra violência azul

(O que poderia ter ficado para a história
Ficou a um décimo do que podia ter sido
Pois o meu maior erro de fotografa
foi deixar-me sentir-me segura
numa faculdade de psicologia)

Pois de noite,
depois do telejornal
ninguém saberá.
(Disse-nos a Carolina
que assim o faziam no seu tempo
nos protestos anti-propinas:
“De noite, para ninguém ouvir”).

Quase nas traseiras, por uma grade
víamos o terror azul claro
ouvimos um policia, rindo-se
a proferir uma frase
que ainda um ano depois
cada vez que me lembro
me tira a mente do corpo,
me deixa agitada, a tremer,
gritando sem som:
“Se eles querem brincar vamos brincar”

(E eles brincaram:
Circundando a esperança
Com todas as bastonadas
Arrastando a Catarina
no chão da rua
levando as nossas amigas,
nas traseiras de Psicologia)

E muitos ainda apareceram
de noite, após a chamada
de pedido de ajuda
quando alertamos as redes
que tinha chegado a polícia
E assim, estudantes e apoiantes,
gritavam outro poema:
“Que vergonha que vergonha,
Que deve ser
Prender uma estudante
Num mundo a arder”

De noite, voltámos para a fachada
da fachada da faculdade
de psicologia e ciências da educação.
Nas tendas que tirámos,
dormimos, na rua,
arriscando sermos vítimas
daqueles contra os quais lutamos
que nos mandavam
ameaças de morte.

Quem não se importava de mentir
dizia ser estudante de direito
para nessa faculdade
ter acesso a uma casa de banho.
As outras, tinham um cantinho
no jardim da poente do edifício
de Psicologia e Ciências da Educação

De noite, ergueram-se faixas à lua:
“Bloco de Resistência Estudantil
contra a Repressão Policial”,
essa faixa levada meses antes,
combativamente,
na marcha do dia do estudante,
ficou estendida, deitada de noite
em frente à fachada de Psicologia
e Ciências da Educação.

De noite, depois de tudo,
um estudante toca guitarra
Não o gravo.
Capturei segundos do seu som.

De manhã: uma funcionária
fez troça de nós, chamou-nos “sem abrigo”
(Para onde iria uma fotografa da periferia
de noite, sem transportes?)
Quando pudemos entrar, tirar as coisas
(apenas uma a uma)
Pedi ao segurança para carregar a bateria
Disse-lhe
“se a polícia voltar, ter uma câmara
é a melhor forma de me proteger”
Respondeu-me
“Isso não é problema meu”

(O medo horroroso e agonizante
de sermos vitimas de violência polícial
não é preocupação da Segurança)

(Agora que sou funcionária,
agora que vigio museus –
Ainda menos percebo
Como puderam ser assim
trabalhadores como eu
a reforçar quem nos oprime)

Mas houve fermento:
De manhã, um jornalista de Azambuja
naquele dia estava na Palestina
com a equipa do Fumaça, na Cisjordânia
mostrou aos locais o momento
do retorno das estudantes detidas
E na distância nos contou
que lhes despertámos esperança

(Como se não bastassem razões
para testar nossas intervenções!)

(Mas vocês acham que gostamos
daquilo que fazemos?
Acham que não preferiamos
acender velas em vigílias silenciosas
ou escrever artigos?
Porta-te bem ativista,
protesta como o sistema que te oprime
quer que tu protestes!)

Oito meses passados ainda tremo
ainda me dá o medo da polícia
Vêem-me plenas as memórias
O corpo reage em gestos bruscos
E numa vontade de gritar
olhos fechados, boca aberta –
O grito sai em sussurro
para não incomodar os vizinhos

(Ao voltar do trabalho
Sentada no elétrico, anoitecendo,
Vejo luzes azuis em Santo Amaro
e estou no Campus denovo)

“Se eles querem brincar, vamos brincar”

No psiquiatra
não conto o que me atormenta
Pois que pode dizer uma ativista
a psicólogos e psiquiatras,
Quando próprios estudantes
de psicologia e medicina
nos ferem propositadamente?

Vinte dias depois do 9 de maio
protestaram na escola médica
e brotou a resposta:

Que os meus futuros médicos
sejam os estudantes de medicina
cujo Juramento de Hipócrates
é serem detidos pela polícia
quebrando normalidades doentes.

Que os meus colegas,
trabalhadores na cultura,
tenham estado nos treinos físicos
de auto-defesa não-violenta coletiva
para nos protegermos da policia
no pátio da cisterna das Belas Artes
ao som de tunas ensaiando.
(Fermenta a luta, amor –
porque para certos autorizados
a andar armados,
tudo é uma brincadeira)

(Um dia o oceano levantará
por inação causada por repressão
e quando o Campus da Justiça
estiver debaixo de água,
nesse dia seremos livres
por meros segundos
antes de morrermos também)

(Oh, estudante,
não sejas como eu fui em Coimbra –
Faz pela abolição do
conservadorismo vestido de Abril
que te faz celebrar as disrupções
do século Vinte, e te cega
para a necessidade da disrupção
no século Vinte e Um
perante ameaças maiores que ditaduras.
Repito: ‘Pedir a Palavra’
é fazer-se depender de ser ouvido)

Oh, meu corpo tremendo:
Eu recuso-me
a acreditar que um diretor
de uma faculdade de psicologia
não sabia o que estava a fazer
aos nossos cérebros.

Noutra noite, d’outro ano,
liberta-se parte de uma mente sufocada:
do trauma brotou o poema
da noite do 9 de maio de 2024.

Mergulho Alem-Rua

  • Este poema pretende transmitir a intensidade emocional que senti quando comecei a lidar com de ativismo sério, defino como grupos que pensam em estratégia, coordenação internacional, cultura de segurança, e que providenciam recursos e apoio mútuo para ajudar cada pessoa a desenvolver-se no melhor de si. Antes apenas conhecia o mundo muito limitado de dois grupos da Associação Académica de Coimbra (Grupo Ecológico e um pelouro no Núcleo de Estudantes de Letras), que, embora me custe admitir, agora reconheço terem sido seriamente afetados pela cultura de domesticação estudantil do “Pedir a Palavra”. Parte do meu “luto e luta” pessoal é sobre lidar com ter feito parte de um sistema que abafava as vozes de pessoas que agora são minhas amigas. Isto implica lidar emocionalmente com saber que já podia ser outra pessoa mas ainda estou por aprender tantas coisas que já podia ter conhecido (e com essa informação ter-me tornado algo mais concretizado), e podia ter também conhecido as pessoas que agora me são mais queridas, que, enquanto eu vivia na cultura domesticadora do “Peço a Palavra”, estavam a arriscar o próprio corpo em ação direta. Este poema é sobre esta metamorfose, sobre este mergulho, sobre este trabalho emocional. Começa com um sentimento de fascínio ao ouvir histórias de outras pessoas ou sobre pessoas que já mais experienciaram, e em algumas partes desenvolve-se no que já experienciei.

Mergulho Além-Rua

Descreve uma cozinheira anarquista
sinergias em encontros internacionais,
desafios e resiliência da horizontalidade;
ser recebida pela diáspora curda,
e como cantam o poema de Rojava.
Uma atriz lamenta memórias
do campos climático no Líbano
pelo que a guerra tornou aqueles campos
que viram povos de todo este globo
encostando-se uns aos outros
por uma esperança maior que estados
por uma esperança maior que impérios
Uma estudante de Antropologia reuniu na Bolivia,
com cuidado nos contou de assassinatos de ativistas;
de resistências indígenas no México,
da defesa das terras, da defesa da Terra.

Há sororidade
na estrada bloqueada,
na câmara municipal pintada:
acord’ás vias, expõe nosso sangue –
pigmento de cheias branqueadas

Há imaginação radical
e esperança coletiva
numa faculdade ocupada,
(Pelo clima, pela Palestina)
lugar de reunião tornado base de operações,
Constrói protestos, reivindicações,
— ação direta, toma as instituições –
Tece redes de apoio mútuo,
monta uma cantina popular:
a construção da esperança
é mais eficaz quando não há fome.

No pós-laboral há mobilização de rua
E entre os maus cheiros de cola
de farinha cozida fermentada,
conversamos sobre tudo e nada:
Imaginação radical, ações concretas,
Trabalhos de merda, Guerra das Estrelas.

Criemos grupos de afinidade,
assombrades pela ameaça neo-nazi;
e haverá Infiltrado que nos quer à beira do precipício
Será polícia, jornalista, fascista?
Òh – tememos medo de confiança
mas também das barreiras de segurança
que impedem união nas resistências;

(Como se lida com ter informação
que tem de ir connosco para a sepultura?
Respondam-me, anciães de Abril!)

Cuidemos uns dos outros
Lembremo-nos da nossa humanidade:
numa panela cada vez mais fervente,
entre opressão, insultos e agressões,
Ser humano é um esforço contínuo

(“Vai trabalhar ativista,
não interessa se acabaste de vir
do trabalho – não te conheço”

Mas nas 40 horas que passo
sentada numa cadeira enquanto o mundo arde,
penso e exclamo:
Louvados são os desempregados
que esses sim têm mais tempo para agir
em vez de estarem a tornar os ricos mais ricos
ou a tecer uma falta sensação de paz
e normalidade que nos domestica)

(Como se lida com um luto específico
pela pessoa que eu não fui?
Como se lida com eu ter sido
a pessoa que insultaria
quem me é agora mais querido?
Pensar que em vez de falar mal de ti
podia ter estado aqui
e proteger-te com meu corpo físico)

Vocês são mais que a teoria que escrevem
ou vossas nódoas de bastonadas da polícia:
Tu, que tens 16 casos em tribunal,
Tu, que tens listas de leitura para fazer na prisão
Tu, que adormeces entre cada paragem de comboio
Tu, que já te cansaste de trabalhar em Organizações Não-Governamentais
Vocês, as ONGs que secretamente nos ajudam
Vocês, estudantes que foram condenades a multas de quinhentos euros por bloquearem o ministerio da saude, protestando pelos direitos de pessoas trans, palestina e clima, perante a cultura domesticadora do “Peço a Palavra”.
Vocês, que fazem o que podem tendo em conta
as vossas carreiras de docentes nas universidades
Vocês, que em ações de cara tapada
são chamados de gatunos que não dão a cara,
mas quando a mostram para se humanizarem
vos dizem que “só querem aparecer e ter fama”
Vocês que escreveram nas paredes da Okupa
de Santa Engrácia “A luta é um poema coletivo”.

Oh, grito e choro!
Tudo o que já mais me deu esperança
na humanidade foi destruído pela polícia!

E mais choro em Abril
pois tentam convencer-nos que somos livres
vivendo num planeta em colapso!
(Adiante, que já escrevi esse poema,
já escrevi Turista de Istambul)

Quando se dá o mergulho
encontramos um mundo
reprimido, escondido,
(mas à vista de todes
– faz a própria imaginação coletiva
pensar que nem existe no presente
porque do passado tanto se fala
– em nem um porcento)
Oh, somos feitos de heranças
de resistências passadas,
com conhecimentos vindos
desde as nossas famílias
(avós que viveram outra ditadura),
quer as em que nascemos
ou as por nós escolhidas
(Quando eu nasci, a minha mãe,
por necessidade, vivia numa Okupa);
dos livros banidos
nas bibliotecas anarquistas;
ou de amigues por todo este globo
Comunicando, Coordenando-se,
experimentando, escrevendo:
Teoria, auto-defesa, repressão, poesia

No mínimo,
teremos o nosso papel
na ecologia dos movimentos.

No mínimo,
recusaremos o esquecimento histórico
de quem tentou.

Justaposições d’uma mente Trabalhadora-Ativista

  • [Versão em Português neste mesmo post, após a versão inglesa] Por agora este é o unico poema (semi-poesia semi-manifesto) que refinei em inglês. Estava sentada a vigiar uma sala no museu onde trabalho, com um Dali ao meu lado, quando vi noticias sobre cinco ativistas climáticos condenados à prisão no Reino Unido por fazerem uma chamada sobre desobediência civil, e comecei a pensar nas ansiedades que também temos cá. Pensei ainda na minha relação com a arte, a cultura, a sua capacidade tanto interventiva como opressora (há tanta domesticação de movimentos sociais disfarçada de progressivismo), ações de protesto em espaços culturais, e a justaposição entre um quieto trabalho que envolve vigilância (que me prende pela necessidade de um salário e me impede de fazer ativismo 40 horas por semana) com a minha crença na necessidade de disrupção na sociedade (o “passar a linha”). Recitei-o na conferência anual da Acesso Cultura de 2024.

Juxtapositions of a Worker-Activist mind

Forty hours a week in a museum,
telling visitors to be careful with the art pieces.

In moments of irony which doesn’t escape me,
I read about civil disobedience in the quiet hours;
and holding the book with my hands, partially concealing the title,
I tell the people I vigilate,
to not cross a black line, drawn on the floor.

Quietly sitting in the tall chair of the corridor, a Dali next to me,
I see news of more climate activists sentenced to prison.

And I ask myself if the visitors use art
as a momentary escape from a collapsing planet
or if art makes them passive towards this world.
And I say “Sorry, please mind the line”
(Where can the line be drawn in this duality?)

And I wonder how to be whole:
The quietness of these rooms makes this artist inspired,
this museum worker relieved,
this activist restless and uneasy.
Facing the juxtapositions of my mind,
I turn and say, “Sorry, please don’t touch”

(Art has all these capabilities:
To protect, involve, to intervene, even entertain,
but it can also domesticate you, and limit one’s potential,
leaving us limited to the mere acknowledgement of the problem –
“look at this piece by this marginalized artist,
you do your part by looking at it,
the structure that oppresses them is grateful if you merely feel compassion,
you don’t need to attack anything”

– Oh, Art! Oh, Culture! Why is it that graduating in your History
taught me that I should think of you as you are
and not as artists and enthusiasts think of you?
Why is there propaganda
– including some from museological institutions –
which tells us that changing the world is something inherent of you?)

How many artists have died
How much material has been degraded
before we even started saying
“There’s no Art on a dead planet”

But Art, the pandora box that shook your world
was no artists’ death
and when it comes to material heritage:
it was no degradation due to temperature variation,
of freeze-thaw cycles or day-night thermoclastism,
or sea acidification, or defrost thawing,
nor raging fires or ravenous floods;
The pandora box that shook your world,
Twas soup on glass and flour on stone.

So how can I say it didn’t work,
(And I didn’t want it to)
When I know of the conferences activists lead to?
When on my social circle, only did they start talking
when Van Gogh became a symbol of climate resistance.

(For are we not the daughters of Fluxus,
who taught us to promote non art reality?)

I answer the visitors questions while I know
my friends are somewhere blocking a road.
And I’m quietly protecting a Picasso
when my dearests are being detained in disobedience,
fighting against the actual biggest threat to our heritage.

There is a metaphorical line
which I want everyone to cross
– it is located inside everyone’s mind;
you cross it when you answer to yourself:
Knowing what you know, what will you do?

There is still art on a dying planet.

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Justaposições d’uma mente Trabalhadora-Ativista

40 Horas por semana no museu,
a dizer às pessoas para terem cuidado com as peças

Em momentos de ironia que não me escapa,
Leio sobre desobediência civil nas horas quietas;
e de livro na mão, título parcialmente escondido,
Digo às pessoas que vigio,
para não passarem uma linha negra, desenhada no chão

Sentada na cadeira alta, um Salvador Dali ao lado de mim
Vejo notícias sobre mais ativistas climáticos condenados à prisão

E perguntou-me se os visitantes usam arte
como escape momentâneo de um planeta em colapso
ou se a arte os torna passivos perante este mundo
E digo “Desculpe, cuidado com a linha”
(Onde se traça a linha nesta dualidade?)

E questiono-me como lidar com o assombro de ser uma pessoa inteira:
A quietude destas salas deixa esta artista inspirada,
esta trabalhadora de museu aliviada,
esta ativista inquieta
Encaro estas justaposições da mente, movo-me e exclamo:
“Por favor não toque”

(Arte tem todas estas capacidades:
Proteger, envolver, intervir, até entreter,
mas também de domesticar, limitar potenciais,
limitando-nos ao mero reconhecimento de um problema
– “olha esta obra deste artista marginalizado,
fazes a tua parte por olha-la, a estrutura que o oprime
agradece-te se meramente sentires compaixão
– pois assim não o atacas.

Ò Arte ò Cultura, porque é que licenciar-me na tua história
me ensinou que tenho de pensar em ti como és
e não como artistas e apreciadores falam de ti?
Porque é que há propaganda – inclusive de museus –
que nos diz que mudar o mundo é tua capacidade inerente?)

Quantos artistas já morreram
E quanto material se degradou
Antes de começarmos a exclamar
“Não há arte num planeta morto”

Mas Arte, a caixa de Pandora que te abalou o mundo
não foi morte literal de artista
e no que toca a património material:
Não foi degradação por maior variação de temperaturas
entre dias e noites, ou de ciclos de derretimento,
ou acidificação oceânica, ou descongelamento de degelos,
Ou fogo sedento ou cheias abrasadas
A caixa de Pandora que te abalou o mundo
Foi sopa em vidro e farinha em pedra.

Então como posso dizer que não funciona
(E não queria que funcionasse)
Quando conheço as conferências a que os ativistas levaram?
Quando no meu círculo social, só começaram a falar
quando VanGogh se tornou num símbolo de resistência climática?

(Pois não somos nós as filhas de Fluxus
que nos ensinaram a promover a realidade que não é arte?

Respondo as questões dos visitantes enquanto sei
que algures amigas bloqueiam uma estrada
E na quietude protejo um Picasso
quando as minhas queridas são detidas em desobediência
Contra a verdadeira maior ameaça às nossas heranças.

E penso que quero que todos passemos
as linhas metafóricas de dentro de nós –
Essas linhas dos riscos que nos bloqueiam
As ultrapassamos temendo e encarando
respostas vindas de nós mesmas:

Sabendo o que sabes o que é que vais fazer?
Ainda há arte num planeta a morrer.

Turista de Istambul

  • Era dia 12 de Abril de 2024. Estava com colegas do Climaximo nas traseiras de uma oficina de Serigrafia que nos ajuda na criação de materiais artísticos. Falámos sobre o mundo, ativismo, disrupção, receios. A meio, entra na loja uma turista que vem de Istambul, e o mestre da oficina vai recebe-la. Ouvimos a conversa. Senti um poema a brotar. O poema também é inspirado em, e faz referência, a ações da Greve Climática Estudantil. Tento expressar que a forma como estamos a perder a nossa liberdade no século XXI não tem o mesmo aspecto que a sua perda no século XX. Originalmente publicado em julho de 2024.

Turista de Istambul, passaste por cá em Abril.
Apareceste na loja de serigrafias
enquanto a resistência estava na oficina.

Turista de Istambul, viste os nossos rostos?

Tingíamos tecidos que sabíamos vir a ser apreendidos pela policia;
Em Bloqueios de Estrada, Sabotagem Industrial, Colagens.
Estas artes efémeras de símbolos do tempo e do nosso tempo.

(Viste história e não soubeste.
Havia história em ti que não soubemos?)

Turista de Istambul, ouvi-te dizer que não era seguro o teu país.
Quantas ativistas; feministas; antifascistas; climáticas
não estarão nas traseiras das lojas artísticas,
que levianamente turistas em Istambul visitam?

(Se os políticos que me querem dona de casa vencerem
terei máquinas de estênceis, gravuras, e costura.
Farei arte efémera em vez de lavar a louça)

Turista de Istambul, no dia em que nos foste ver sem querer:
Falei de ir ao hospital numa noite de onda de calor;
Falamos da seca em Beja (minha Baronia, –
onde a minha mãe colhe com as suas mãos
frutos d’um colapso negado).
Falamos de amigues no Tribunal, Vitimas de Violência policial; e Prisão.

(Óh, se ao menos tivéssemos confiança
noutra Teoria de Mudança –
– “juro, é só mais uma petição,
e enquanto isso lá passarão”!
)

Turista de Istambul, confrontaram o presidente:
Respondeu-lhes que é tão bom viver em Liberdade;
Poder opinar; Confrontar a autoridade;
Pois ditadura era Tribunal; Violência policial; Prisão.

(O presidente não sabia – não percebeu, não perguntou -,
que o estudante que o confrontou
já foi para o hospital de cabeça a sangrar
por violência policial)

Turista de Istambul, ali podias ver-nos os rostos –
(Partes d’)estas Resistências não são secretas:
Os nossos cânticos são poesia nas ruas;
Com fotografia recusamos o esquecimento histórico
– se perdermos, se for em vão – olhem, Acontecemos;
E as bandanas com que escondem as caras
estão expostas nas montras das lojas de gravuras.

(E os estudantes declamam o poema:
“Esquadra, Porrada, Policia e Julgamento,
não assustam mais que dois graus de aquecimento”;
E todes esperamos que num dia ou noite,
nos possamos livrar dos megafones e ampulhetas)

Turista de Istambul,
no Agosto de 23 a Turquia sentiu mais de 49ºC;
quando vir no jornal que chegou aos 50ºC,
lembrar-me-ei de ti outra vez.

(E se silêncio houver,
voltaremos a ter tecidos confiscados)

‘Cinquenta’, número-Símbolo de efeméride de Abril;
‘Cinquenta’ número-Sentido-na-pele, na seca, no hospital e tribunal.
‘Cinquenta e um’ número-que-Será-Esquecido na mundanidade da fome.

(A poetisa amadora
precisa de ver poemas no mundano
pois não há arte que salve quer mente ou corpo
num colapso normalizado de guerra negada)

E o ultimo dístico resume o que todo o poema expressa:
“Dizem que Liberdade é não ter medo mas estou aterrorizada;
Pois se ser livre é isto, então falhámos a Liberdade”

Sistema-Solo-Esfera

  • Muito havia na minha cabeça. Pensamentos desordenados. Qualquer sua ordenação levava-me a concluir que apenas me libertaria com desordem exterior. Originalmente publicado em Fevereiro de 2024.

Libertação é além-Liberdade. Libertar é verbo-Ação.
Que se celebre a Forma-em-Mutação e não este «Estático»:
Um passado construído de Historiografia de heróis restritos,
ofuscando os pilares formados pelo raiz-coletivo;
Pois ‘Pedir a Palavra’ é fazer-se depender de ser ouvido.
(Esperam-se mais messias de flor ao peito?)
Celebra-se mais a gota-Palavra que a onda-Organização –
Passam-se meras histórias ‘nacionais’, ignora-se a teia global;
(Esmagaram as pernas das aranhas historiadoras precárias)
Romantizou-se o conceito de Revolução,
Mobilizou-se o esquecimento de mil movimentos.
Pois afinal a madrugada esperada já chegou:
Não estamos libertos da poluição da opressão fascista?
Eu, tu, a ativista espancada, o morto pela policia,
e a assembleia-popular anti-fascista contra-protestada?
(Qual megafone confiscado? Não ouvi)
Terrorismo estocastico foi guerra que o mundo anterior perdeu.
(O mundo anterior-antigo acabou dentro de última década)
Que orgulho, defender a celebração das revoluções do passado;
Mas cuidado, falar do presente é imoderado, e demasiado político.

Primavera I

  • Inspirado pelas primaveras estudantis pelo Clima que evoluíram de forma mais intensa principalmente a partir de 2019, fenómeno que levou a desenvolvimentos em muitas pessoas que a partir dessas experiências depois encontraram a sua forma de lutar, por vezes antagónicas entre umas e outras. Poema em diálogo com Baladas da Despedida de Coimbra, onde a poetisa amadora estudou. Originalmente publicado em Dezembro de 2023.

Primavera I

Deixaram cair uma flor adormecida;
morta pela seca de verão de maio,
e Abril desgastado.
Foi artificial, foi negado;
Foi intenção levada ao esquecimento
pelo tempo gasto em sistema que lucra do cansaço.

Queimaram a floresta da flor adormecida,
foi fogo que se fez apressar
ficaram cinzas: saudades que nunca irão nascer
num mundo a arder.

Haverá agua para poder chorar?
Onde estão as recordações de que o passado falou?

Brotou a Primavera Estudantil
para insistir em ter a estação primaveril.
Fertilizada em crítica de décadas por outros romantizadas
Brotada do receio de embarcar num futuro incerto

Movimento de convergências cheio de divergências.
Cada gota uma pessoa;
E ao divergente de mim, exclamo:
– Dá-me a mão – seremos onda em oceano
(ácido).

Sentes que o tempo acabou?

Contos do Sono: Cidade e Povo de Iús

  • Inspirado num sonho que tive a 8 de Março de 2022. Sonhei com uma população inventada algures nos meus neurónios, ouvi sons, vi cores, várias ideias vagas de uma cultura. Originalmente publicado dia 8 de Março de 2022.

Ultramarino. Cidade estreita entre montanhas férteis que se desenvolve ao longo de um rio. Destino de vários caminhos de água até um centro único, desagua de volta em vários afluentes. Três partes a que os habitantes chamam Raízes, Tronco e Ramos, metaforicamente entendendo-se a si mesmos como Folhas e as suas acções como Sementes. Não são mais que uns oito milhares.

As casas estão a vários metros acima do caudal pois a maré muito sobe. A área onde estão as montanhas é a única habitada do seu globo. As praias são banhadas por pigmentos em tons de azul que a água traz da força com que desgasta as rochas. O Povo usa-os na sua arte, essencialmente bidimensional, muito ligada ao mar por ser o imaginário do seu mistério. Está nas paredes das suas casas, em pequenas galerias onde de ensina o engenho, e de tão abundante em pinturas temporárias das suas caras às pernas.

De vez em quando uma luz subtilmente cintilante brilha nos ares e nas águas, entre brancos, amarelos e azuis, expressão da substância mágica que liga mar terra e ar. Todo o povo a sente e entende-a não como divina mas alguma espécie de criatura viva, uma vizinha, não sabem se imortal, um dom de Iús pois mais nada conhecem, preferem conhecer-se a si mesmos. Chamam-lhe Inuo – “a luz”, inu – luz.

O povo usa túnicas e mantas consoante a estação tingidos com os pigmentos escuros do oceano, os ocres da terra e pequenos toques dos violetas das flores juntos com os verdes muito escuros da natureza circundante. Mulheres e homens usam ou não joias a gosto, de metais escuros, pratas, lazúlis e pequenas pedrinhas quase transparentes, brancas, que captam a luz das luas e cujo brilho subtil se vai derramando em pequenos nevoeiros durante um mês. Não há materiais considerados preciosos, e quase tudo é passado de geração em geração com eventuais modificações.

Criaturas marinhas raramente passam pelo rio por terem tanto mar e a maioria se assustar com cenários – casas, o povo – que nunca viram. Por vezes uma – quer peixe, quer baleia – perdida encontra um caminho até aos afluentes e dá-se uma cerimónia que começou improvisada, mas tornou-se tradição passada por gerações: Inuo faz o peixe brilhar para que nele reparem, e pessoas que lá perto se encontram guiam-no de volta ao mar, não vá desaguar onde não respira. Enquanto dura, cantam. As suas artes mais prezadas são as não materiais. Sons etéreos, meditativos, que trazem paz aos sentidos, as suas letras não são da língua que falam mas é nela baseada, um afastar do objetivo sem se desligarem das suas perceções pois reconhecem que delas tudo deriva. Nas cerimónias canta-se muito à base de vogais, entre o I e o U, num som que lembra as palavras “A luz guia” – “Inuo abimur”.

Povo ultramarino sem conhecer o abismo do mar, o mar dá-lhe as suas cores para se lhe darem de volta a ele nos fins da sua vida e retornarem em cinzas às areias. Dizem os mais antigos que todos os que já viveram entre as montanhas são átomos nas suas casas e corpo.